No décimo dia do conflito entre o Irã, os Estados Unidos e Israel, uma pequena faixa de terra no Golfo Pérsico concentra as atenções dos estrategistas militares de todo o mundo: a Ilha de Kharg. Com apenas 20 quilômetros quadrados, o território abriga a principal infraestrutura petrolífera do regime iraniano e responde por até 90% do petróleo exportado pelo país — e, até agora, permanece intocada pelos ataques aliados.
Por que Kharg ainda não foi atacada?
A resposta está nos mercados globais. Desde o início do conflito, na semana passada, o petróleo Brent já ultrapassou US$ 92 o barril. Uma ação direta contra Kharg poderia interromper um fluxo de até 1,6 milhão de barris por dia — todos destinados à China — e desencadear uma crise energética mundial sem precedentes, segundo análise do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS), dos EUA.
“Em termos de infraestrutura, Kharg abriga um dos maiores e mais críticos terminais exportadores do país. Perder o controle da ilha significaria transformar um conflito já dispendioso em uma guerra potencialmente asfixiante”, avalia João Alfredo Lopes Nyegray, professor de Relações Internacionais da PUCPR.
O pilar econômico da Guarda Revolucionária
A ilha não é apenas infraestrutura — é a artéria financeira da Guarda Revolucionária Iraniana, o braço paramilitar que sustenta o regime. É por Kharg que passa a chamada “frota fantasma” do Irã, responsável por contornar sanções ocidentais e abastecer o mercado chinês.
“Sem esse fluxo financeiro, o Estado perde a capacidade de financiar subsídios internos e manter a máquina pública, resultando em um isolamento comercial sem precedentes”, afirma Ricardo Caichiolo, professor de Relações Internacionais e diretor do Ibmec Brasília.
O dilema estratégico dos aliados
EUA e Israel prometeram intensificar a pressão sobre o regime iraniano nesta semana, com foco na Guarda Revolucionária. Mas atacar Kharg é um cálculo de alto risco: o benefício militar de estrangular economicamente o Irã pode ser anulado pelo caos que provocaria nos mercados globais de energia.
- Kharg processa até 90% das exportações de petróleo iraniano
- O Irã bateu recordes de produção de 4 milhões de barris/dia antes dos ataques
- O petróleo Brent já subiu quase 30% desde o início do conflito
- Uma interrupção afetaria diretamente a China, principal compradora do petróleo iraniano
Enquanto os bombardeios prosseguem e o Irã anuncia um novo líder supremo para suceder o aiatolá Ali Khamenei — morto em 28 de fevereiro —, Kharg permanece como o trunfo silencioso do regime: difícil de ignorar, perigoso demais para ser tocado.
Fontes
- Gazeta do Povo — “Como tomada de ilha pode ser um golpe fatal para o regime do Irã”
- Gazeta do Povo — “Irã anuncia escolha de novo líder supremo, sucessor de Khamenei”
- Jovem Pan — “Irã define sucessor de Ali Khamenei”
- G1/Globo — “Assembleia de Clérigos escolhe novo líder supremo do Irã”