GUERRA NO IRÃ AFETA ECONOMIA BRASILEIRA: Petróleo sobe 35% em um mês e ameaça inflação e corte da Selic
O cenário que o governo Lula tentava evitar chegou. Com o barril de petróleo Brent atingindo US$ 119,50 na segunda-feira (9) — em meio à escalada militar dos Estados Unidos e Israel contra o Irã —, a economia brasileira sentiu de imediato os efeitos da crise no Oriente Médio.
O secretário do Tesouro Nacional, Rogério Ceron, havia alertado na semana anterior: o impacto inflacionário chegaria com força ao Brasil se o barril ultrapassasse os US$ 100. A barreira foi rompida — e com força.
Nesta terça (10), o Brent recuava para US$ 93,07, mas acumula alta de 35,5% em apenas um mês. Para os analistas, isso já é suficiente para pressionar a inflação e colocar em xeque o início do ciclo de cortes na taxa Selic.
Da gasolina ao feijão: a cadeia do impacto
O repasse começa pelos combustíveis — imediato e direto. Com o diesel mais caro, o frete rodoviário sobe junto. E como cerca de 80% das cargas no Brasil são transportadas por caminhões, o encarecimento se espalha por toda a cadeia: alimentos, bens industriais e serviços.
“No curto prazo, esse movimento tem o potencial de interromper ou até reverter a tendência de queda da inflação”, alerta André Braz, coordenador de índices de preços do FGV Ibre.
Agronegócio no olho do furacão
O setor mais exposto, além do energético, é o agronegócio. O Brasil importa entre 80% e 85% dos fertilizantes que consome — e o Oriente Médio fornece um terço da ureia importada pelo país.
Com a paralisação de plantas de gás no Catar após ataques de drones, o preço da ureia saltou mais de 10% em poucos dias. Cada alta de 10% nos fertilizantes eleva em cerca de 5% o custo do produtor de soja e milho, segundo o Bradesco.
A região também é destino de 14% do açúcar brasileiro, 9% do milho e 8% do frango exportados — uma rota comercial que agora enfrenta incertezas crescentes.
O Banco Central agora se vê diante de um dilema: manter o plano de cortes na Selic — já sob pressão — ou segurar o juro para combater a nova ameaça inflacionária que chega de fora.