Chile: crise do cabo submarino da China quase impediu posse de Kast — EUA revogaram visas de funcionários de Boric
O Chile vive uma transição de poder inédita em décadas. Gabriel Boric e José Antonio Kast retomaram neste domingo (8) o processo de traspasso de governo após uma ruptura sem precedentes que durou cinco dias. O presidente eleito, representante da direita chilena, anunciará sua posse em 11 de março após o colapso temporário do diálogo com o governo Boric — epicentro de um conflito geopolítico direto com os Estados Unidos.
O projeto que quase derrubou a transição
A crise tem origem no projeto Chile-China Express, um cabo submarino de fibra óptica de quase 20 mil quilômetros que conectaria Valparaíso a Hong Kong, via empresa estatal chinesa China Mobile International. O ministro de Telecomunicações de Boric assinou uma concessão de 30 anos à empresa chinesa — e, 48 horas depois, anulou o decreto alegando “erro técnico”. A reação de Washington foi imediata: o Departamento de Estado americano revogou as visas diplomáticas de três funcionários do governo Boric, acusando-os de “solapar a segurança regional”. A tensão geopolítica entre China e EUA no Pacífico entrou diretamente na política interna chilena.
Kast e a vitória do senso de Estado
No dia 3 de março, uma reunião de transição no Palácio de La Moneda durou apenas 22 minutos antes de Kast abandonar o local, exigindo retratação de Boric por declarações falsas sobre uma suposta ligação prévia. O presidente Boric se recusou, e o processo de traspasso foi suspenso. Neste domingo, as partes anunciaram a normalização e garantiram que a posse ocorrerá “de maneira impecável”. A crise evidencia o choque de valores entre a esquerda de Boric — que tentou aproximar o Chile da China — e a direita de Kast, que mantém alinhamento estratégico com os EUA. Para os cidadãos chilenos, o saldo é uma lição clara: acordos com Pequim têm preço geopolítico alto.